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Vidas remotas de mãe

“No caminho, as crianças me enriqueceram mais que Sócrates.”

(Manoel de Barros)

A comunicação e a maternidade chegaram quase juntas na minha vida, como duas amigas que embarcam no acreditavam ser uma grande festa, mas que ficou mais para aventura de equilíbrio. A comunicação primeiro, a maternidade logo depois. 

Em 2007, entrei a primeira vez em uma agência de publicidade. Dois dias depois de ser efetivada como “recepcionista”, a mídia/produção gráfica pediu demissão e eu participei de uma reunião bem aos moldes cinematográficos: um olha pro outro, o outro olha pro um, eu olho pro relógio, os dois olham pra mim e eu pergunto: “vocês querem que eu fiquei no lugar dela?” Sim, era isso. Em três dias em uma agência de publicidade eu aprendi o textinho que devia dizer quando puxasse o telefone, como se transfere um ramal, qual a mentira devia dizer quando cada um não quisesse atender e o que é uma reunião de pauta. Na minha primeira, inclusive, alguém virou pra mim e disse: liga pro Jornal da Paraíba (saudoso!) e orça um quarto modificado. Chega para alguém no meio de uma graduação de licenciatura e bacharelado em História e pede para a pessoa descrever um quarto modificado… Eu fiquei o resto da reunião inteira em silêncio, imaginando um quarto modificado: um guarda roupas de cabeça para baixo, uma cama em pé em um canto de parede, até que fui salva por uma das mulheres maravilhosas que cruzou meu caminho nessa estrada.

Maria José, à época diretora comercial do jornal, era dura, séria e eu diria até “temida”, mas deixou seu posto e veio me dar uma aula sobre tudo que poderia inventar ao pensar em publicidade para jornal. Maria José fica para outro merecido texto, mas queria fazer meu primeiro registro aqui sobre a maternidade: as mulheres são um bálsamo no nosso ardiloso caminho.

Os primeiros meses na agência foram, para mim, dolorosos como os primeiros meses na maternidade. Tinha dias de chorar escondido, chegar chorando em casa, me achando burra, incapaz, até o dia que bati o pé no meio de uma crise de choro e disse: não saio dessa agência antes que isso se torne minha profissão. Eu tinha 18 anos.

Um ano depois, já confortável no papel de uma verdadeira equilibrista de pratos, veio a maternidade como uma descarga elétrica. Forte e inesperada. Lá fui eu, equilibrar os pratos todos de novo. Novos pratos, infinitos pratos, lutando contra as mesmas crises de choro, o mesmo medo, a mesma insegurança. Me sentia igualmente incapaz, mas, se em um desafio eu poderia simplesmente desistir e seguir o plano um, que era ser professora, no outro, uma vez decidido ser mãe, não existia o plano dois e aqui devo fazer um adendo que definiu a minha história com a maternidade nesses 13 anos: tive tudo que muitas mulheres não têm para exercer plenamente sua maternidade. Tive rede de apoio, casa, segurança, amor, tive direitos trabalhistas respeitados, acesso à saúde. Tive o apoio de mulheres, as que citei acima como bálsamo no caminho – minha primeira lição aprendida, que me seguraram em todos os momentos que julguei, por cansaço ou por ainda acreditar no mito da super-mãe, não ser capaz de ocupar esse lugar.

A maternidade deu um outro tom às minhas escolhas e a forma como me escolhiam a partir de então. Lidei com todos os problemas velhos conhecidos de quem não escolhe fechar os olhos para a realidade da nossa sociedade, da desigualdade salarial a ser preterida em cargos para os quais tinha total competência simplesmente por ser mãe. Por outro lado, aprendi também a manusear a força que ter alguém que depende de você desperta e enxerguei, no meio do medo do desconhecido, a potência que nasce da nossa necessidade de se reinventar, pois o que conseguimos ser até então, já não nos atende mais.

São 13 anos de jobs, fraldas, pautas, tarefas de casa coloridas, gerenciamento de equipes, galinha pintadinha, cases, machucados horrorosos pintados de mercúrio cromo, e-mails corporativos, pré-adolescência, reuniões intermináveis no trabalho, reuniões intermináveis na escola, batalhas no PS4 e muito mais dessa mistura que, para mim, teve desafios no mesmo tom. Se a paixão pela comunicação se desvelou para mim e fez com que eu batesse o pé, enfrentasse preconceitos, modelos pré concebidos de mulher-profissional e quisesse chegar até aqui, a paixão pela maternidade me fez vencer dores, medos, inseguranças, todos os estereótipos que a sociedade nos impõe enquanto mulheres-mães, e também me fez chegar até aqui.

Não são caminhos distintos, sou eu na mesma estrada, a minha história. 

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